A música popular é um excelente documento histórico para narrar a evolução tecnológica, especialmente dos meios de comunicação. Ficou confuso? Calma, eu explico.
A evolução tecnológica é mais rápida do que parece
Veja, lá nos anos 2010 — por volta de 2012 a 2014 — muitas manchetes, até sensacionalistas, eu diria, anunciavam que o volume de informação (leia-se produção de dados digitais) dobrava a cada dois anos. Hoje em dia, com a popularização da internet das coisas e com o advento da era das Inteligências Artificiais, podemos dizer com certa margem de segurança que esse dado é conservador. Isto é, com certeza a informação gerada pela humanidade se multiplica muito rapidamente.
E o mesmo vale para os aparelhos tecnológicos, em especial os ligados aos meios de comunicação.
Do telefone fixo ao celular: uma cronologia possível
Tomemos como exemplo a telefonia. Segundo o Google, o telefone foi inventado em 10 de março de 1876, data da primeira transmissão bem-sucedida de voz por fio, realizada pelo cientista escocês Alexander Graham Bell, que registrou a patente da invenção no mesmo ano. Porém, o telefone só se popularizou efetivamente por volta da década de 1920, mas isso só em países ricos como os EUA. A verdadeira expansão veio mesmo após a Segunda Guerra Mundial, nos anos 40 e 50. No Brasil mesmo, as casas populares só ganharam aparelhos telefônicos no final dos anos 90 e início dos anos 2000.
Aí, lá nos anos 60, nos EUA, surgiu o telefone sem fio. Que se popularizou nos lares americanos pra valer só nos anos 80. No Brasil, o telefone sem fio virou o grande objeto de desejo das famílias de classe média durante a década de 1990. A febre se deveu, em grande parte, graças às telenovelas, que mostravam personagens andando pelos cômodos da casa falando em seus aparelhos telefônicos, sem estarem presos a fios.
O celular: do “tijolão” ao pré-pago
Então, nos anos 70, surge outra novidade revolucionária: o aparelho celular. Diferente do telefone sem fio doméstico, o celular se conecta a antenas de telefonia espalhadas por toda a cidade (ERBs). Ou seja, o usuário poderia fazer ligações de qualquer lugar, sem necessariamente ter que estar em casa.
O engenheiro Martin Cooper, da Motorola, fez a primeira ligação de celular da história em uma rua de Nova York. Ele ligou para o seu maior rival tecnológico, que trabalhava na AT&T, para dizer que tinha vencido a corrida espacial das comunicações móveis.
O protótipo era o Motorola DynaTAC 8000X, apelidado de “tijolão”. Ele pesava mais de 1 kg, tinha cerca de 33 cm de altura, a bateria durava apenas 20 a 30 minutos e precisava de 10 horas para carregar. Imagine isso!
O desenvolvimento, no entanto, não foi tão fácil: a Motorola demorou nada menos que 10 anos para conseguir aprovar a tecnologia e lançar o aparelho comercialmente. Custava cerca de US$ 3.995 (uma fortuna na época) e era exclusivo para empresários e milionários.
30 de dezembro de 1990, na cidade do Rio de Janeiro. O primeiro aparelho comercializado por aqui foi o Motorola PT-550. Em valores corrigidos hoje, o aparelho e a linha custavam o equivalente a R$15 mil, sendo restrito à elite.
O boom dos celulares aconteceu em terras brasileiras com a popularização dos chamados celulares pré-pagos, aqueles que você tem que pôr crédito para usar, no início dos anos 2000. Nessa época, aliás, surgiram muitos modelos diferentes de diversas marcas que tentaram ganhar sua fatia do bolo desse mercado em ascensão.
O surgimento dos smartphone
O próximo grande salto evolutivo veio com a criação do smartphone. Entretanto, engana-se quem pensa que a Apple foi a grande pioneira nesse ramo. Afinal, o IBM Simon, lançado comercialmente em 1994, é considerado o primeiro smartphone do mundo.
Muito antes do iPhone, o Simon já tinha uma tela sensível ao toque (usada com uma caneta stylus). Ele combinava celular com funções de PDA (assistente digital pessoal), permitindo enviar e receber e-mails, fax, além de ter calendário, calculadora, bloco de notas e mapas integrados.
Porém, em janeiro de 2007, a equipe de desenvolvedores da Apple, que teve seu trabalho expropriado por Steve Jobs (desculpe, o marxista em mim sempre fala mais alto), mudou a história da tecnologia ao apresentar o primeiro iPhone. O novo modelo de smartphone eliminou os teclados físicos e as canetas stylus, introduzindo a tela capacitiva multitoque (controlada perfeitamente com os dedos) e um navegador de internet de verdade.
A popularização dos apps
Em 2008, o surgimento da App Store (da Apple) e do sistema Android (do Google) permitiu que qualquer desenvolvedor criasse aplicativos, dando início à era dos apps que usamos hoje.
Mas, embora o iPhone tenha ditado o conceito em 2007, ele sempre foi muito caro. A popularização em massa aconteceu quando o Google disponibilizou o sistema Android para marcas como Samsung, Motorola, LG e ASUS.
O ano de 2013 foi o marco histórico em que, pela primeira vez no mundo, as vendas de smartphones superaram as de celulares comuns (os chamados feature phones ou celulares de botão). No Brasil, essa virada aconteceu exatamente no mesmo ano: em 2013, os smartphones responderam por cerca de 68% das vendas de celulares no país.
O grande motor que forçou a população a migrar para o smartphone foi o WhatsApp. O aplicativo começou a se espalhar fortemente a partir de 2011 e virou o principal meio de comunicação, substituindo o SMS (que era pago por mensagem).
E hoje em dia é impensável sair de casa sem o celular. Afinal, nossa vida toda está nele. Isto é, com ele respondemos e-mails pessoais e profissionais; no WhatsApp falamos com todos os nossos amigos, familiares e colegas de trabalho; todos os nossos documentos estão lá e até nosso dinheiro se tornou digital, com o Pix e os cartões de crédito via NFC.
A música popular como documento histórico
E isso para citar apenas um aspecto da vida cotidiana. Mas não sei se você percebeu que as mudanças foram ficando cada vez mais próximas. Do surgimento do primeiro telefone, em 1876, à invenção do celular, passaram-se quase 100 anos. Mas para a evolução do smartphone foi preciso apenas algumas décadas. Já para a popularização desses aparelhos e para que ficássemos reféns dessa tecnologia foram questão de anos.
E isso tudo pode ser explicado de várias formas, mais didáticas ou mais acadêmicas. Porém, eu acredito que a melhor maneira de perceber essa evolução é olhando para a música popular tocada e ouvida nas rádios e nas ruas de todo o Brasil. Sim, esse textão todo foi só um preâmbulo para adentrarmos ao conteúdo principal deste texto, a saber: música popular é um excelente documento histórico para narrar a evolução tecnológica, especialmente dos meios de comunicação.
A carta e o telegrama nas canções
Vamos lá, vamos fazer outra digressão no tempo. Muito antes da popularização dos smartphones, ou mesmo da invenção do aparelho celular, as pessoas já tinham a necessidade de se comunicar e sentiam desejo de expressar seus sentimentos por quem estava longe. E faziam das mais variadas formas. Escrevendo cartas, por exemplo. Como na canção “A Carta”, da dupla sertaneja Milionário e José Rico:
“Estou escrevendo esta carta meio aos prantos
Ando meio pelos cantos
Pois não encontrei coragem
De encarar o teu olhar”
E esse meio de comunicação não era instantâneo, ao contrário do que é hoje em dia. Afinal, na continuação da letra o eu-lírico afirma:
“Quando você ler eu vou estar bem longe
Não me julgue tão covarde
Só não quis te ver chorar”
Outro exemplo pode ser encontrado na famosa canção “Ainda ontem chorei de saudade”, eternizada na voz da dupla João Mineiro e Marciano. Na qual a amada escreve uma carta para o amante encerrando a relação.
“Você me pede na carta
Que eu desapareça
Que eu nunca mais te procure
Pra sempre te esqueça”
E como registro material a carta provoca uma série de sentimentos e afetos contraditórios no interlocutor:
“Ainda ontem chorei de saudade
Relendo a carta, sentindo o perfume”
Esse modelo de comunicação também evoluiu e entrou em cena o telegrama, que nada mais é do que uma mensagem escrita urgente e confidencial, enviada de forma eletrônica e entregue impressa no endereço do destinatário. No Brasil, o serviço é prestado pelos Correios.
Esse meio de comunicação pode servir para vários propósitos, empresariais, comerciais e até românticos. Como é o caso presente na música “Telegrama”, da banda Exaltasamba, na qual o eu-lírico implora à amada que entre em contato, por qualquer via possível.
“Me liga
Me manda um telegrama
Uma carta de amor”
E quando o telegrama é recebido com uma mensagem positiva, os amantes ficam mais felizes. Como no caso da canção homônima, do músico Zeca Baleiro.
“Mas ontem eu recebi um telegrama
Era você de Aracaju ou do Alabama
Dizendo: Nego, sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz
Que muito te ama”
O efeito é tão gratificante que o eu-lírico chega a declarar que:
“Por isso, hoje eu acordei com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho e desejar bom dia
De beijar o português da padaria”
O telefone fixo e o orelhão na música brasileira
E claro que a música acompanhou a evolução tecnológica nos meios de comunicação. O advento do telefone revolucionou não só o modo como as pessoas conversavam umas às outras, mas também como essa comunicação era representada nas músicas.
O exemplo mais emblemático talvez seja a música “Telefone Mudo”, do Trio Parada Dura. Essa canção revela não só a evolução tecnológica, mas também como as pessoas se relacionavam com as novas tecnologias. Veja esse trecho, por exemplo:
“Eu quero que risque meu nome da sua agenda
Esqueça o meu telefone não me ligue mais”
Os mais experientes sabem o que significa o ato de riscar o nome da agenda. Pois antigamente era comum possuir pequenas cadernetinhas de papel onde se escreviam os números de telefones de conhecidos, amigos, familiares, empresas ou prestadores de serviço, enfim, qualquer número importante, justamente para não se esquecer. Então, quando o eu-lírico da canção pede que a outra pessoa risque o número da agenda, é um ato definitivo de rompimento da relação.
E não só isso: o amante desiludido decide dar um passo a mais para romper contato com a amada.
“Por isso é que decidi
O meu telefone cortar
Você vai discar várias vezes
Telefone mudo não pode chamar”
Outra relação cotidiana de uso da tecnologia. Cortar o telefone é cancelar a linha, desistir de ter um número de telefone. Isso faria com que a pessoa que ligasse não conseguisse completar a chamada e encontrasse apenas um telefone mudo.
Outros exemplos não faltam, como é o caso da música “Telefone”, de Tim Maia. Mas gostaria de me ater a outro fenômeno social tipicamente brasileiro: o orelhão. Quem cresceu nos anos noventa, início dos anos dois mil, sabe do que eu estou falando.
Nesse período muitas pessoas já tinham telefone fixo em suas residências, mas o celular ainda era artigo de luxo. Portanto, se você estivesse na rua e quisesse falar com alguém de maneira urgente, teria que comprar uma ficha telefônica e encontrar o telefone público mais próximo. E isso se tornou hábito entre os brasileiros. Inclusive para realizar chamadas a cobrar ou passar trotes. Bons tempos!
O cantor Michel Teló tem até uma canção pra isso. Trata-se da música “Orelhão”, onde um dos trechos brinca justamente com essa situação comum do Brasil.
“Eu to ligando a cobrar para o seu coração
Mas não desliga, me escuta eu to no orelhão
Se eu pudesse, meu dinheiro desse
Eu tava ai”
Mas, sem dúvidas, a composição mais famosa é “Ligação Urbana”, que ficou muito famosa na voz da dupla Bruno e Marrone. Na canção o eu-lírico descreve para a amada sua ação de usar o, tão conhecido de gerações passadas, orelhão.
“Alô, amor?
‘To te ligando de um orelhão
‘Tá um barulho, uma confusão”
E ainda conta para os ouvintes, quase que num exercício metacomunicativo, como era a relação de uso com essa tecnologia. O usuário não podia demorar muito, pois não era o único a ter a necessidade de utilizar o telefone público.
“Um beijo pra você
Não posso demorar
‘To numa ligação urbana
Tem mais gente pra ligar”
Só complementando, faço um paralelo com a música “Payphone”, da banda estadunidense Maroon 5. Que também fala sobre o uso dos telefones públicos, chamados de payphones em inglês (algo como telefones pagos, ou pré-pagos se formos fazer uma aproximação com o universo dos celulares). Na canção o eu-lírico também diz que está fazendo uma ligação usando o telefone público e ainda faz um jogo de palavras com o termo “change”, que pode significar tanto o troco do dinheiro, ou moedas usadas para fazer a ligação, quanto o ato de mudar. Dizendo que gastou todo o “change” (troco/mudança) com a pessoa com a qual está falando na ligação. Ou seja, apostou tudo no relacionamento.
“I’m at a payphone, trying to call home
All of my change, I spent on you”.
O celular e o smartphone nas canções populares
Com o advento dos celulares e, posteriormente, dos smartphones, e sua consequente popularização, houve uma verdadeira explosão de músicas populares dos mais variados gêneros que falam sobre essas tecnologias e as relações sociais engendradas por elas.
Gino e Geno, por exemplo, na canção “Celular”, falam sobre a relação quase que viciante de usar o aparelho, ao ponto de sentirmos abstinência quando a bateria acaba e o celular fica praticamente inutilizável, mesmo que por um curto período de tempo.
“O meu celular acabou a bateria
Vixe Maria, não trouxe o carregador
E sem carregador, meu Deus, que agonia
Celular sem bateria eu não falo com meu amor”
Já a música “Senha do Celular”, de Henrique e Diego, revela como esse aparelho revela ainda um outro modo de se relacionar, especificamente nas relações heterossexuais monogâmicas, causando ciúmes, desconfianças e outros sentimentos. Afinal, a canção já inicia com o seguinte trecho:
“Se não deixa pegar o celular
É porque tá traindo”
E continua mostrando que esse comportamento ainda pode evoluir para quebra de confiança e invasão de espaço pessoal. Até porque o celular hoje se revela uma extensão da individualidade da pessoa, um lugar íntimo, quase secreto.
“Eu descobri a senha do seu celular
E machucou tudo que eu vi
Eu fui na sua página e no seu Whatsapp
Vi suas mensagens todas”
O que, por sua vez, gera uma série de atitudes para se esquivar desses comportamentos.
“Agora eu entendi o seu desespero
Que até no banheiro leva o celular
Desliga se eu ‘tô do lado diz que está descarregado
Ou que esqueceu o carregador”
Outra canção que mostra que a tecnologia mudou nossa forma de nos relacionarmos, especialmente em relacionamentos afetivos/românticos, é a música “Celular 2”, de Marília Tavares. Afinal, a forma como salvamos o contato na memória do aparelho revela nossa estima pela outra pessoa, como demonstra a cantora, ao declamar que:
“Mas doeu, doeu
Eu descobri que o meu amor
Também era o amor dos outros
E tinha o celular dos rolos
Eu nem te reconheço
‘Cê era uma pessoa em cada aparelho
No celular um, eu era o amor da sua vida
No celular dois, nem meu contato ‘cê tinha”
E termina fazendo um jogo de palavras com a capacidade de armazenamento do celular:
“’To chorando aqui, molhando a tela inteira
64 gigas de safadeza”
WhatsApp, notificações e novas formas de se relacionar
Aí ainda há a relação com as mensagens escritas e a aparição de notificações na tela de vidro, e as reações que esses estímulos visuais provocam. Por exemplo, na canção “Arranhão”, da dupla Henrique e Juliano, onde temos um trecho que mostra a vulnerabilidade do indivíduo frente a uma mensagem recebida.
“Parece que cê sente cheiro de bebida de longe
Sabe que eu tô fraco
Aí que entra seu nome na tela do celular
Me perguntando: Aonde você tá?
Sabe onde minha saudade aperta
Quando o seu dedo aperta
Na palavra que me acerta
E deixa minha raiva cega
Cê sabe que eu sou incapaz e a falta que faz”
Ou na música “Notificação Preferida”, da dupla Zé Neto e Cristiano, onde o eu-lírico demonstra que já superou um amor passado, ao declamar que a pessoa “Foi, mas não é mais a minha notificação preferida”. Isto é, ao notar que a notificação recebida era de uma pessoa específica causava uma reação positiva que já não causa mais. Deixando, assim, de ser bem quista, pondo fim à relação.
E com o advento de novas funcionalidades a comunicação é alterada. Por exemplo, o WhatsApp, plataforma de mensagens instantâneas mais popular no Brasil, atualmente permite editar a mensagem, ou apagar definitivamente mensagens enviadas, permite o envio de fotos, vídeos, áudios, inclusive de visualização única. E tudo isso estabelece uma série de significações nas conversas do dia a dia.
A canção “Apaguei para Todos”, do cantor Ferrugem, explora algumas dessas funcionalidades para demonstrar a apreensão do eu-lírico, que se mostra nervoso ao mandar uma mensagem para a pessoa amada.
“Eu já digitei, apaguei, digitei de novo
Eu já te xinguei, enviei e apaguei pra todos
Escrevi: Te amo, te odeio, me esquece, volta comigo
Olha o que a saudade faz
Olha o que a saudade fez comigo”
Já a canção “Manda Áudio”, do conjunto musical Menos é Mais, com participação do grupo Di Propósito, inicia relatando a imaturidade de uma outra pessoa que terminou o relacionamento de maneira que o eu-lírico julga equivocada. Afinal, “por mensagem é fácil terminar”. E segue demonstrando que a frieza das palavras escritas na tela pode esconder o sentimento que a voz revela, por isso o envio de mensagens de áudio acaba sendo mais humanizador para a conversa.
“Manda áudio
Deixa eu ver se tem saudade no seu tom de voz
No seu alô dá pra saber se ainda pensa em nós
Se o problema for amor pode voltar que ainda tem”
O cantor Ferrugem também possui outra canção que aborda outra funcionalidade do WhatsApp, a função “bloquear”, que impede que o usuário bloqueado interaja ou sequer veja atualizações da pessoa que o bloqueou. Na música, a dor de ver a amada com outro é tão grande que o eu-lírico clama para ser bloqueado nos aplicativos, mas em uma hipérbole também pede que o faça na vida. Como num episódio da série “Black Mirror”, onde a função bloquear sai do digital e passa para a vida real offline.
“Me bloqueia
Das mensagens e da sua vida”
Conectividade excessiva, wi-fi e redes sociais
A conectividade excessiva também é abordada nas canções populares. Como na música “Saudade do Caramba”, de João Neto e Frederico, na qual o eu-lírico mal chega no bar e já pede “a senha do wi-fi pro Seu João”. Outro ponto abordado nessa mesma canção é o fato de estarmos cada vez mais atentos à vida dos outros, que por sua vez se expõem cada vez mais ao nosso olho. Numa espécie de jogo voyeur onde a economia da atenção está cada vez mais em voga. Afinal, o eu-lírico confessa que
“Até tentei, não consegui me segurar
Me deu vontade de saber como ela tá
Cada foto que eu olho
É uma dose que eu tomo
Eu dou um gole e choro”
Mas essa relação também provoca reações adversas ao excesso de conexão. Nessa mesma canção de João Neto e Frederico, o eu-lírico cansou de sofrer vendo sua ex com outra pessoa e, diante de sua impotência de se desconectar (do aparelho, da internet e do relacionamento que chegou ao fim), implora para que seu sofrimento seja encerrado por outrem.
“Desliga logo esse wi-fi
Senão eu vou morrer de amor”
Essa mesma discussão é encontrada na letra de “Tijolão”, da dupla Jorge e Mateus. Nessa música a aversão ao sentimento se estende não apenas para o meio que propaga a mensagem que faz o eu-lírico sofrer, mas também para o próprio aparelho que é veículo de tanta dor. Chegando ao ponto de o mesmo desejar trocar o celular moderno por um tijolão — referência aos modelos antigos da Nokia, que ficaram conhecidos no Brasil por esse apelido, justamente por conta de seu tamanho e peso — num esforço de se ver livre desse ambiente, mas também de voltar no tempo para um momento mais simples e feliz.
“Por que você não me bloqueou
Pra eu parar de chorar em cima da tela?
Eu vou trocar meu celular num Nokia tijolão
Que só manda mensagem e faz ligação
Se eu ver mais um vídeo seu, sem eu, sendo feliz
Certeza que a minha vida vai ’tá por um triz
Me mata não, essa internet virou arma na sua mão”
A mesma dupla Jorge e Mateus possui mais uma canção que aborda a questão da exposição excessiva em redes sociais. Citando uma funcionalidade de outra rede social, o Instagram (pertencente ao conglomerado Meta, que também é dono do WhatsApp). Além disso, a letra “Molhando o Volante” relata outro comportamento típico da era das redes sociais, a hiper performatividade, que faz com que as pessoas não só compartilhem em excesso suas rotinas, como sempre mostrem os aspectos considerados positivos da sua vida, e escondam os considerados negativos. Num contexto onde parecer acaba sendo mais importante do que ser.
No caso dessa música em específico o eu-lírico se refere à pessoa amada, dizendo que reconhece que o comportamento da mesma é pura performance. Que ela não o esqueceu e que mesmo postando felicidade nos “stories”, na “vida real” ela está sofrendo.
“Mas o som do seu carro só toca indireta
Para de filmar o painel e vira a tela
Só sai saudade desse alto-falante
Atrás dos stories, cê tá molhando o volante”.
Considerações finais: a música como fonte histórica
Enfim, esses foram alguns exemplos que eu consegui pensar e compilar neste texto. Acho que seria mais curto, mas acredito que a (longa, mas mesmo assim introdutória) exposição aqui apresentada revela a concretude da minha tese inicial. As coisas da cultura popular, neste caso concreto as músicas, servem como boa fonte histórica. Claro, desde bem contextualizadas, como toda boa fonte.
Até porque a evolução tecnológica não terá fim enquanto a curiosidade e a inventividade humana existirem (mesmo que usada para a manutenção de um sistema desigual e insano, por buscar acumulo infinito num planeta com recursos finitos – desculpe, novamente o marxista em mim falando mais alto). Além disso, os meios de comunicação seguirão evoluindo para acompanhar esse desenvolvimento tecnológico. E as canções populares seguirão registrando essas novas tecnologias e as relações sociais por elas engendradas.
E isso que citei apenas um aspecto especifico da tecnologia, os meios de comunicação. E dentro desse universo apenas o telefone e seus meios antecessores e sucessores. O mesmo método pode ser aplicado para o entretenimento, as artes, as relações sociais, como as relações trabalhistas, por exemplo. Enfim, uma infinidade de análises possíveis.
Quem sabe essa seja uma boa ferramenta didática para se usar em sala de aula. Ou então um bom caminho investigativo para se usar em pesquisas acadêmicas. Em suma, o potencial é enorme e eu espero ter aberto a porta e colocado uma pulga atrás da orelha de quem leu essas singelas palavras.
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Valdirzera é definitivamente um dos autores do InduTalks. Fez filosofia, mas se formou em Publicidade e Propaganda. Adora quadrinhos, livros, série, filmes e todo tipo de nerdice. É apaixonado por produção audiovisual e sonha em um dia dirigir um longa metragem.
