Homens, mulheres e a fantasia do relacionamento perfeito

Homens, mulheres e a fantasia do relacionamento perfeito

Nos últimos tempos, assisti a uma sequência de filmes que, isoladamente, pareciam não ter muita coisa em comum. Mas todas elas tem um personagem em comum: a fantasia do relacionamento perfeito.

Recentemente entrei num looping cinematográfico e em poucos dias assisti Pendular, História de um Casamento, Anatomia de uma Queda, Obsessão e O Drama. Filmes diferentes, de épocas diferentes, com propostas completamente diferentes.

Mas eu percebi que estava vendo quase a mesma história repetidamente.

Isto é, um homem se relaciona com uma mulher que é interessante, talentosa, complexa, cheia de vida. Em algum momento, porém, aquilo que ele imaginou sobre ela começa a entrar em conflito com a pessoa real que está diante dele. E é aí que as coisas começam a desandar.

Não necessariamente porque ele deixou de amá-la. Às vezes justamente porque ainda ama.

Mas porque não sabe lidar com o fato de que amar alguém não significa possuir essa pessoa, controlar sua trajetória ou garantir que ela continue sendo exatamente aquilo que ele imaginou.

Talvez o problema comece antes mesmo do relacionamento. A gente não se apaixona apenas por pessoas. Muitas vezes nos apaixonamos também pela ideia que construímos delas. Pela maneira como elas nos tratam, pelo papel que desempenham na nossa vida, pelaquilo que acreditamos que aquela relação diz sobre nós mesmos.

Ela é a mulher que me admira. Ele é o homem que me protege. Ela é a pessoa que entende minhas ambições. Ele é aquele cara que finalmente vai construir uma família comigo.

E tudo funciona enquanto a pessoa real consegue desempenhar esse papel. Só que ninguém consegue interpretar uma personagem para sempre. A convivência desmonta a fantasia.

Você descobre que aquela mulher tem ambições que não incluem você. Que aquele homem também é inseguro. Que ela não quer ser mãe. Que ele não quer casar. Que ela mudou. Que você mudou. Que o sexo mudou. Que o trabalho mudou. Que aquilo que parecia perfeito quando vocês se conheceram era, em parte, uma projeção.

E talvez esse seja um dos grandes problemas das relações: não a existência da idealização, mas a dificuldade de aceitar quando ela começa a desaparecer.

Porque existe uma diferença enorme entre pensar: “Essa pessoa não é quem eu imaginei.” e pensar: “Essa pessoa está errada por não ser quem eu imaginei.”

A primeira é uma descoberta dolorosa. A segunda é uma forma de violência contra a realidade.

O murro na parede

Existe uma imagem que aparece mais de uma vez nesses filmes e que ficou na minha cabeça: o homem que, diante da frustração, dá um murro na parede.

Em História de um Casamento, Charlie faz isso. Em Pendular, algo semelhante acontece. E o gesto é quase patético.

Não porque a dor seja falsa, mas porque a parede é completamente incapaz de responder ao que está acontecendo.

O sujeito está tomado por uma emoção que não consegue elaborar e transforma aquilo em impacto físico. É como se o corpo dissesse aquilo que ele não consegue colocar em palavras.

“Estou com medo.”

“Estou frustrado.”

“Eu não sei o que fazer.”

“Eu não aceito que isso esteja acontecendo.”

Mas nenhuma dessas frases sai. Sai o murro.

Talvez exista alguma coisa profundamente masculina nesse gesto — não porque homens sejam biologicamente incapazes de conversar sobre sentimentos, mas porque muitos de nós crescemos aprendendo que vulnerabilidade é fraqueza.

Homem não chora. Homem aguenta. Homem resolve. Homem não pede. Homem não demonstra medo.

E, quando não sabemos o que fazer com aquilo que sentimos, aprendemos que a raiva é uma das poucas emoções que podemos expressar sem questionar nossa própria masculinidade.

Então ficamos putos. Quando estamos tristes, ficamos putos. Quando estamos com medo, ficamos putos. Quando somos rejeitados, ficamos putos. Quando alguém vai embora, ficamos putos.

E às vezes transformamos uma emoção que deveria ser elaborada em uma coisa que precisa ser descarregada.

“Eu não fui capaz de fazer ela ficar”

Talvez essa seja uma das ideias mais perigosas dentro de determinadas formas de masculinidade. A mulher foi embora. E o homem não pensa: “Ela não quer mais estar comigo.” Ele pensa: “Eu não fui capaz de fazer ela ficar.”

Parece uma diferença pequena, mas não é. Na primeira frase existe o reconhecimento da autonomia dela. Já na segunda, existe uma concepção de relacionamento baseada em potência: eu deveria ser capaz de manter essa mulher comigo.

E, se ela foi embora, alguma coisa em mim falhou. É aí que rejeição pode se transformar em humilhação.

E, quando a rejeição é interpretada como humilhação, o desejo de recuperar a própria dignidade pode se transformar em desejo de recuperar o controle.

É nesse terreno que aparecem comportamentos de controle, chantagem emocional, manipulação, violência e, nos casos mais extremos, feminicídio.

Não porque todo homem rejeitado vá seguir esse caminho. Obviamente não.

Mas porque existe uma conexão assustadora entre a ideia de que uma mulher deve permanecer e a incapacidade de aceitar que ela pode escolher partir.

A mulher não é uma prova da potência masculina. Ela não está ali para confirmar que você é desejável, forte, bem-sucedido ou suficientemente homem. Ela é uma pessoa. E pessoas podem ir embora.

A vespa

Em Pendular, existe uma história contada pela personagem sobre uma vespa.

Ela deposita seus ovos dentro de uma larva. A larva continua crescendo enquanto carrega aquilo dentro de si. Quando finalmente chega à maturidade, as larvas da vespa também estão maduras e começam a consumir seu hospedeiro por dentro.

É uma imagem tão brutalmente literal que quase parece uma piada de tão óbvia. Mas talvez seja justamente por isso que ela funciona.

Porque existe algo nessa metáfora que me faz pensar em determinados relacionamentos. Não necessariamente em homens monstruosos que entram deliberadamente na vida de mulheres para destruí-las.

Algo muito mais banal. Uma relação que começa com paixão. Depois vêm as concessões. Você muda isso. Eu mudo aquilo. Você abre mão de uma coisa. Eu preciso que você esteja aqui. E, pouco a pouco, a pessoa vai deixando partes de si pelo caminho.

Até que um dia ela percebe que não sabe mais exatamente onde termina o relacionamento e onde começa a própria vida. Talvez seja isso que torne Pendular tão incômodo. Não existe necessariamente um vilão. Existe um casal.

E existe a dificuldade de duas pessoas continuarem sendo indivíduos enquanto tentam construir uma vida juntas.

A pessoa real

Talvez o maior erro de qualquer relacionamento seja acreditar que amar alguém significa continuar amando a versão daquela pessoa que existia quando vocês se conheceram.

Só que ninguém fica parado. Você muda. A outra pessoa muda. E, às vezes, o sentimento muda também.

Isso não significa necessariamente que alguém traiu, mentiu ou fracassou. Às vezes simplesmente acabou.

E essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de aceitar sobre relacionamentos: nem todo fim precisa de um culpado.

Você pode ter amado alguém profundamente e descobrir que não quer mais estar com essa pessoa. Pode ter sido feliz e ainda assim querer ir embora. Pode não ter feito nada de errado e mesmo assim perceber que aquela relação não faz mais sentido.

E, principalmente, você pode descobrir que não gosta da pessoa real tanto quanto gostava da pessoa que imaginou. E tudo bem. Você não é obrigado a gostar de ninguém.

O que você precisa fazer é reconhecer essa descoberta e tratá-la com honestidade. Porque a outra pessoa não assinou o contrato da sua fantasia. Ela nunca prometeu ser aquilo que você imaginou.

O problema de amar uma personagem

Talvez seja por isso que esses filmes tenham ficado na minha cabeça juntos.

Em O Drama, o que está em jogo é também a imagem que um casal construiu sobre o próprio futuro.

Em História de um Casamento, uma mulher percebe que a vida que construiu ao lado do marido não corresponde mais à vida que deseja ter.

Em Anatomia de uma Queda, a própria verdade sobre um relacionamento se torna impossível de separar das versões que cada um construiu sobre o outro.

Em Pendular, dois artistas tentam descobrir se é possível amar alguém sem ocupar todo o espaço que essa pessoa deveria ter para existir.

São histórias diferentes. Mas todas parecem perguntar alguma coisa parecida:

Você ama a pessoa que está diante de você ou a pessoa que precisa que ela seja?

Talvez amadurecer afetivamente seja justamente aprender a responder essa pergunta.

Não significa abandonar expectativas, desejos ou critérios. Significa entender que o outro não existe para realizá-los.

A pessoa que você ama continua sendo uma pessoa. Ela tem seus defeitos. Tem seus desejos. Tem seus próprios projetos. Pode mudar, discordar de você, deixar de te amar. Pode querer ir embora.

E talvez amar alguém de verdade envolva uma coisa muito menos romântica do que costumamos imaginar: aceitar que essa pessoa nunca pertenceu a você.

E que, justamente por isso, quando ela escolhe ficar, essa escolha significa alguma coisa.

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