Os Heróis de Aluguel são um exemplo paradigmático da fusão de dois movimentos nos quadrinhos: a Kungfumania e a Blaxpoitation.
Kungfumania
No século V, um monge budista chamado Bodhidharma viajou da Índia para China, onde ensinou aos monges shaolin de região uma forma de arte marcial. Ao longo dos séculos essa arte marcial assimilou elementos filosóficos e espirituais do budismo e do confucionismo. Nascia assim, o Kung Fu.
No início do século XX esse estilo marcial se tornou muito popular na China e iniciou um movimento cinematográfico, especialmente em Hong Kong. Com filmes baseados na literatura wuxia e cenas de luta rápidas e dinâmicas. As histórias eram focadas em nobres guerreiros que lutavam pela justiça usando sua técnica marcial para ajudar os fracos e oprimidos.
Nesse gênero encontramos uma mistura entre fantasia, arte marcial e histórias de dinastias antigas. Por isso, os heróis possuem habilidades extraordinárias e faziam referência a vários mitos e lendas. Esse tipo de filme ficou bem popular, Shanghai produziu mais de 250 obras entre 1928 e 1931.
E é nesse contexto que surge em 1958 Shaw Brothers e com ela uma nova era no cinema sobre Kung Fu. Entre os filmes de maior destaque da produtora estão Five Fingers of Death (1972) 3 The 36th Chamber of Shaolin (1978).
Porém o reinado dos irmãos Shaw não seria eterno. No início dos anos 1970, Raymond Chow e Leonard Ho, dois executivos da Shaw Brothers, decidiram pedir demissão e fundar seu próprio estúdio, o Golden Harvest.
O Golden Harvest atraiu talentos da indústria cinematográfica oferecendo melhores contratos e mais liberdade criativa. Mas o que colocou a empresa no mapa foi um contrato firmado em 1971 com um até então desconhecido professor de artes marciais que aspirava ser ator, um tal de Bruce Lee.
Durante a década de 60, Lee conquistou papéis de alcance significativo em Hollywood, chegando a co-estrelar a série “O Besouro Verde”, como o sidekick Kato. Mas em 1971, escanteado por Hollywood, Lee retorna a Hong Kong, onde como um herói nacional.
Então em 1971 ele estrelou o longa The Big Boss, que provou ser um enorme sucesso de bilheteria na Ásia e o catapultou para o estrelato. Mas o grande sucesso veio mesmo com Fist of Fury, um ano depois, que quebrou todos os recordes de bilheteria e se tornou um sucesso internacional.
No entanto, o próprio Bruce Lee não colheria os louros desse sucesso todo. Uma vez que apenas alguns meses após a conclusão de Enter the Dragon, Lee morreu aos 32 anos.
Os anos 70 e 80 viram o boom dos filmes e séries de Kung Fu, após o sucesso meteórico de Bruce Lee. Talvez a principal produção dessa moda seja Kung Fu (1972-1975) é uma série estrelada por John Arthur “David” Carradine (1936-2009). Nos anos 80, outro astro do Kung Fu encantou o mundo, Jackie Chan, que participou de nada menos do que 100 filmes ao longo da carreira.
Nessa mesma época, o cinema de Kung Fu fez particular sucesso com a comunidade negra nos Estados Unidos, especialmente após cruzar com outro “movimento” cinematográfico, a Blaxploitation.
Blaxploitation
o grande marco do cinema como o conhecemos hoje é considerado o filme de D. W. Griffith de 1915, “O Nascimento de uma Nação” (Birth of a Nation), uma produção orgulhosamente estadunidense, com todos os problemas que isso acarreta. Pois, o filme é uma grande ode a Klu Klux Klan.
E desde esse momento o racismo está instaurado em Hollywood, com personagens estereotipados, preconceitos e um protagonismo branco. “O Nascimento de uma Nação” não só faz uso da blackface, como demarca muito bem o papel do negro na sociedade americana: domesticado ou surrado. Além disso, há um forte sexismo e machismo presente nesse filme, uma vez que a mulher é relegada ao papel da mocinha indefesa, uma simples coadjuvante que deve ser salva e servir o herói branco. Isso para a mulher branca. Pois a mulher branca só serve para ser a concubina ou a caricata empregada, que mais tarde ficou conhecida como a figura da mammy.
Mas engana-se quem pensa que não houve resistência e diversidade. Já no início do século XX surgiram cineastas propondo outra visão de sociedade e de cinema, reagindo às representações pejorativas e preconceituosas, como resposta direta às produções como O Nascimento de uma Nação.
Tais produções receberam a alcunha, um tanto pejorativa, de race movies. O maior representante dessses filmes é o cineasta negro Oscar Micheaux, no qual as produções como The Symbol of The Unconquered (1920), Within Our Gates (1920) e Body and Soul (1925), já apontavam para uma tentativa de representar a comunidade negra com uma agência política, integrados na sociedade. Da mesma forma, a obra The Notorious Elinor (1940) já indicava uma pretensa tentativa de combate a descriminação racial e a condição de marginalidade imposta aos negros.
Dessa confluência de fatores: de um lado um cinema mainstream racista e preconceituosa e de outro uma cena marginal propondo uma contracultura e de luta por direitos civis, surge nos anos 70, um movimento que buscava o protagonismo negro para suprir uma demanda reprimida e para lutar contra a opressão institucional hollywoodiana sob atores, produtores, roteiristas e cineastas negros. Surge a chamada Blaxploitation.
No entanto, não existe um consenso no que diz respeito qual o filme lançou o movimento blaxpolitation na História do Cinema Negro, alguns dizem que Shaft (1971) de Gordon Parks baliza o início do movimento, para outros o ponto de partida dos black action films foi a obra polêmica Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971) de Melvin Van Peebles.
A narrativa dos filmes blaxploitation atravessava, principalmente, duas dimensões, a tentativa de combater a representação eurocêntrica e pejorativa do negro, assim como, manifestava uma mensagem de autoafirmação, ou seja, uma busca por uma valorização racial. O empenho consistia em expor uma identidade negra, mas uma identidade que possuía certas especificidades, os filmes blaxploitation exibem uma identidade da negritude muito mais alinhada a uma estética black power, jovem e urbana.
O “gênero” se tornou proliferando muito rapidamente. Durante a primeira metade da década de 1970, mais de 200 filmes desse tipo – que quebraram os estereótipos cinematográficos existentes ao apresentar homens negros autocontrolados (e ocasionalmente mulheres, notadamente Pam Grier) no controle de seus próprios destinos – foram feitos, em gêneros como terror (notavelmente Blacula, o Vampiro Negro, 1972), westerns (Buck and the Preacher, 1972), comédia (Watermelon Man, 1970), drama (Baby Needs a New Pair of Shoes, 1974) e, de longe, o subgênero mais popular, ação (Shaft, 1971).
Mas é claro que, como tudo, esse movimento foi fruto das contradições de seu tempo. desde o início, muitos críticos, alguns até ligados aos movimentos por direitos civis. apontaram para os estereótipos possibilitados pelos comportamentos dos heróis e heroínas dos filmes – que muitas vezes incluíam tráfico de drogas, violência e sexo fácil – difundidos pelos filmes; também prejudicial foi a ausência de uma estética cultural negra. Crítica intensificada após os estúdios hollywoodianos, que num primeiro momento tentaram boicotar o movimento, cresceram os olhos para as bilheterias que essas produções fizeram. Então os filmes passaram a se tornar ainda mais rasos e mais estereotipados, como se os estúdios “brancos” tentassem repetir a fórmula, mas transformassem os filmes num pastiche.
Graças às controvérsias e polêmicas que embalavam as divergências de opinião, a popularidade do movimento diminuiu até chegar ao fim, já no final da década de 70. Um movimento meteórico, mas que provocou mudanças duradouras.
Kung Fu, Blaxploitation e a Marvel
Como tudo que faz um sucesso moderado na Cultura Pop, a Kungfumania e a Blaxploitation foram trazidos para os quadrinhos. E como tudo que faz sucesso moderado na Cultura Pop, houve coisas boas, coisas mais ou menos e coisas ruins.
A primeira criação dos quadrinhos dessa onda, pelo menos de maneira menos efêmera, que eu consegui encontrar foi Judomaster (Mestre-Judoca), sim o que aparece na série do Pacificador. O personagem estreou em Special War Series #4 (Novembro de 1965) da Charlton Comics e foi criado por Joe Gill e Frank McLaughlin.
A Marvel só entra na jogada mesmo em 1972, quando os filmes do Bruce Lee já começavam a fazer um grande sucesso. A “Casa das Ideias” tentou comprar os direitos de adaptação do seriado Kung Fu, mas não deu boa. Mas a editora não desistiu e resolveu comprar os direitos de outra obra, dessa vez, o clássico pulp de Sax Rohmer, Fu Manchu. E em dezembro de 1973, nas páginas da revista bimestral Special Marvel Edition # 15, surge o herói Shang-Chi, como filho da versão da Marvel do vilão Fu Manchu. A HQ foi escrita por Steve Englehart e ilustrada por Jim Starlin.
Nessa esteira de heróis de artes marciais, vale lembrar de:
- Yang: Lançado em 1973 pela Charlton Comics. Yang é um mestre em artes marciais da China de 1890 que busca vingar a morte do pai, o mandarim Chung Yuan. Bebia nas águas da série de TV “Kung Fu”, grande sucesso na época.
- Richard Dragon, Kung Fu Fighter: lançado pela DC Comics em maio de 1975. Richard Dragon é um personagem fictício criado por Dennis O’Neil e Jim Berry no romance Dragon’s Fists (1974) sob o pseudônimo de Jim Dennis.
- Punho de Ferro: lançado pela Marvel em 1974. Talvez o mais famoso deles, que resistiu ao tempo. Pelo menos até a Marvel lançar o filme do Shang-Chi em 2021. Na revista Marvel Premiere #15, de fevereiro de 1974, o roteirista Roy Thomas e o desenhista Gil Kane apresentaram ao mundo, o herói Daniel Rand, a.k.a Iron Fist (Punho de Ferro).
A Blaxploitation também não passou impune nos quadrinhos, embora seja menos direta a ligação de uma coisa com a outra. Afinal, personagens negros existem quase que desde sempre nos quadrinhos.
O “primeiro” herói negro dos quadrinhos, pode ser considerado o Lion-Man, de 1947, que surgiu na revista All-Negro Comics. O próprio Will Eisner chegou a escrever um personagem negro na década de 1940, o Ébano para ser parceiro de seu herói Spirit. Embora fosse um autor progressista, Eisner reproduziu diversos estereótipos racistas, como traços caricatos, lábios animalescos e inglês “mal falado”. Ébano costumava servir de alívio cômico nas histórias, encarnando o clichê do “neguinho engraçado”.
Mas, o primeiro super-herói negro propriamente dito de que se tem registro foi o Little Zeng, um jovem rei africano criado pelo ilustrador e músico Chris Acemandese Hall em 1963. Três anos depois da criação de Little Zeng, Stan Lee e Jack Kirby lançaram o Pantera Negra, primeiramente como coadjuvante da revista do Quarteto Fantástico.
Mas foi somente em 1972, com o avanço da Blaxploitation que os personagens negros começaram a ganhar destaque nos quadrinhos pra valer. Na onda do cinema blaxploitation, ao longo da década de 1970, a Marvel apostou na criação de personagens como Mercedes Misty Knight, Blade e Luke Cage. Esse último inclusive foi o primeiro super herói negro a ganhar um título próprio nos EUA. O que aconteceu em junho de 1972 e foi escrito por Archie Goodwin, desenhado por George Tuska e arte-finalizado por Billy Graham.
Luke Cage Hero for Hire #1 é, sem dúvida, uma história em quadrinhos Blaxploitation que aproveitou um gênero que estava em alta na época. Merece elogios por ser o primeiro grande super-herói negro dos Dois Grandes… mas também exibe muitas das armadilhas comuns da época.
Punho de Ferro e Luke Cage: Heróis de Aluguel
Como tudo que é bom, dura pouco, esses movimentos também chegaram ao fim. Muito porque Hollywood fez o que Hollywood sempre faz: pegar algum movimento mais ou menos espontâneo e capitalizar em cima, criando tantas continuações caça-níqueis quanto possível, até esgotar a fórmula.
Então já no final da década de 70 tanto os filmes de Kung Fu, quanto os filmes da blaxploitation não tinham o mesmo apelo com o público em geral. O que levou ao fim desses movimentos.
Mas, se os filmes (mídia principal desses movimentos) e as séries de TV já não faziam tanto sucesso, o que dizer das histórias em quadrinhos? Que, sejamos sinceros, sempre foi um nicho muito pequeno e segmentado. Com a saturação dessas histórias muitas revistas foram canceladas devido aos baixos números de vendas.
Quando as vendas de Punho de Ferro e Luke Cage se tornaram muito baixas, as revistas se tornaram risco de prejuízo para a Marvel. Então a editora tentou algo inovador para a época. Em dezembro de 1977, Danny Rand aparece pela primeira vez na revista do Luke Cage, na HQ “Power Man Vol. 1” #48, escrita por Chris Claremont e desenhada por John Byrne.
Ao perceberem que suas habilidades se complementavam bem, eles decidiram formar uma parceria. A revista então mudou de título e passou a se chamar Power Man and Iron Fist, na qual os dois heróis formaram a companhia Heróis de Aluguel.
Mas, o que começou como uma decisão editorial pragmática acabou se tornando uma das duplas mais icônicas dos quadrinhos. A resposta do público à união dos dois personagens foi positiva, especialmente porque a dinâmica entre eles era muito cativante. Luke Cage e Danny Rand eram personagens com origens e personalidades muito diferentes, mas isso funcionou de maneira brilhante nos quadrinhos. A energia mais pé no chão e cínica de Luke Cage contrastava com a natureza mais espiritual e otimista de Punho de Ferro, criando uma química interessante.
A série “Power Man and Iron Fist” correu por 125 edições até seu cancelamento, em 1986. Mesmo depois do cancelamento, a parceria entre os dois continuou a ser um pilar dentro do Universo Marvel. Ambos os personagens seguiram caminhos separados por um tempo, mas suas histórias sempre se entrelaçaram, e a amizade deles permaneceu um dos elementos centrais de suas respectivas mitologias.
Por isso, foi tão duro pra muita gente ver a porcaria da adaptação da Netflix. Veja, eu sou sempre a favor de uma adaptação que não se prende ao material original. Afinal, antes de mais nada as histórias devem ser boas.
Confira também: Marvel vs DC: Geografia dos Quadrinhos
Conclusão
Enfim. Essa é a história de quando a KungFumania e a Blaxploitation ajudaram a criar uma das melhores duplas dos quadrinhos. Quem sabe um dia os Heróis de Aluguel ganhem uma adaptação digna.
Até lá vale a pena ver os heróis novamente para alugar na mais recente publicação da Panini: Luke Cage e Punho de Ferro (2017).
Ou assistir o episódio 6 da 1ª Temporada da animação Esquadrão de Heróis, “Uma Pirralha entre Nós” (“A Brat Walks Among Us!”). Ou o 5º episódio da 2ª Temporada de Os Vingadores: Os Super-Heróis Mais Poderosos da Terra, “O Roubo Do Homem-Formiga” (“To Steal an Ant-Man”). Episódios em que os Heróis de Aluguel aparecem.
Confira o mais novo vídeo do canal do InduTalks para saber mais sobre o assunto

