Você conhece Tom Mix? Provavelmente não! Mas ele já foi um dos nomes mais importantes do Faroeste. Mas seu legado virou poeira no deserto.
Legado é um negócio curioso, né? Uma daquelas palavras grandes que a gente usa pra falar de permanência, de marcas que resistem ao tempo. Mas basta olhar um pouco para a história do cinema para perceber que, às vezes, até os maiores colossos se dissolvem silenciosamente.
Um ótimo exemplo disso é Tom Mix. Não, não o DJ.
Estamos falando de Thomas Edwin Mix, um dos maiores astros que Hollywood já produziu. Um nome que definia o imaginário do faroeste muito antes de John Wayne existir. Um ator que estrelou 291 filmes, quase todos mudos, e que ajudou a moldar um gênero inteiro entre 1909 e 1935.
O nascimento de um mito
A carreira de Mix começou oficialmente em The Cowboy Millionaire (1909). Mas o filme que realmente o colocou no mapa foi Ranch Life in the Great Southwest (1910), um curta documental no qual ele aparecia como ele mesmo, exibindo habilidades reais como criador de gado. A partir daí, a carreira deslanchou.
Entre seus principais filmes, estão:
- Sky High (1922)
- O Ás do Circo (1927)
- O Herói Desconhecido (1927)
- Cavaleiro das Planícies (1928)
- Um Contra Todos (1929) — já nos anos da FBO Pictures
- A Volta de Tom (1932) — na era dos filmes sonoros pela Universal
Mix não era apenas ator: era um showman nato. Inclusive fundou o Tom Mix Circus, que rodou a Europa inteira atraindo multidões. Imagine o nível de fama: o sujeito literalmente fez sucesso global com um circo próprio.
Tom Mix: O Rei dos Cowboys e a semente de John Wayne
Antes de John Wayne ser John Wayne, ele era Marion Morrison, um universitário que teve de abandonar o futebol por causa de uma lesão. E quem o ajudou a encontrar trabalho nos estúdios da Fox? Tom Mix.
Foi Mix quem abriu o caminho para que Wayne começasse carregando adereços no estúdio, o primeiro passo de uma trajetória que mudaria o faroeste para sempre. Wayne cresceu assistindo Mix, portanto, este moldou sua persona com base no que via e, em certo sentido, é parte direta do legado do cowboy original.
A chegada do som e o início do fim
O advento do cinema sonoro foi cruel para muita gente. Para Mix, então, foi quase um pesadelo.
Ele tinha medo dos diálogos longos. Portanto, suas falas saíam tensas, inseguras. O motivo? Um detalhe humano que hoje seria facilmente resolvido: Mix usava dentadura e morria de pavor que o público percebesse o som estranho que ela fazia quando ele falava.
Enquanto isso, seu circo, um império ambulante, começou a perder renda. Após três temporadas de queda, encerrou atividades. Mix continuou se apresentando pela Europa com Tony II, substituto de seu famoso cavalo Tony. O glamour estava desbotando.
A morte que virou lenda
Em 12 de outubro de 1940, dirigindo seu famoso Cord amarelo personalizado, Mix seguia rumo a Tucson, usando um traje de cowboy extravagante, botas feitas à mão, um Stetson branco impecável e uma fivela cravejada de diamantes.
Na traseira do carro, duas maletas de metal. Perto de Florence, no Arizona, ele tentou desviar de operários na estrada. O carro capotou. Então, uma das maletas voou e o atingiu na nuca, quebrando seu pescoço.
Quando tiraram Tom Mix debaixo do carro, ele já estava morto. Uma morte cinematográfica, quase simbólica. O fim abrupto de um dos maiores ícones do cinema mudo.
O que sobrou de um gigante?
Tom Mix tem sua estrela na Calçada da Fama. Além disso, suas marcas de botas, mãos e as pegadas de Tony eternizadas no Grauman’s Chinese Theatre.
Mas, para ser honesto seu legado tangível hoje é mínimo.
Quase todos os seus filmes estão perdidos ou esquecidos. O cowboy que foi o rosto de uma geração inteira virou uma figura lembrada por um nicho muito pequeno de aficionados por faroeste.
E o monumento em sua homenagem?
Bem… é isso aqui:
Um pequeno memorial na estrada entre Florence e Oracle Junction, no meio do deserto de Sonora. Uma placa, um monumento de metal, alguns quiosques para churrasco. Mas nada que se compare ao tamanho que Mix teve.
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Legado é isso aí
Talvez seja isso que torne o conceito tão fascinante. Tom Mix ajudou a inventar o faroeste moderno. Influenciou John Wayne. Rodou o mundo com um circo próprio. Foi um astro global. Um homem cuja sombra um dia pareceu eterna.
E hoje, seu legado cabe em um punhado de lembranças, umas poucas cópias de filmes sobreviventes, e uma estátua solitária no deserto quente do Arizona.
De um dos maiores astros de Hollywood… sobrou um ponto de parada na beira da estrada.
Mas, afinal, legado é um negócio realmente engraçado.
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