Recentemente assisti ao clássico King Kong de 1933 na cinemateca de Curitiba, e posso afirmar: verdadeiro monstro do filme se chama Carl Denham.
King Kong (1933)
Veja bem, eu entendo e defendo a tese de que nada é isento de político, muito menos o cinema blockbuster. Isto é, se tudo é política, logo os filmes também hão de ser.
Porém, algumas obras defendem mais abertamente teses e posições politicas (dos mais variados aspectos), enquanto outros – por qualquer motivo que sejam – escondem mais isso atrás de roteiros complexos, atuações exageradas ou efeitos especiais rebuscados.
É o caso de King Kong (1933), um dos filmes que inaugurou toda essa febre de monstros gigantes no cinema hollywoodiano.
Analisando com um olhar contemporâneo o filme é bem simples e até bobinho, mas, se levarmos em conta os quase cem anos que separam a realização dessa obra dos dias de hoje, os seus feitos são bem impressionantes.
Um gorila gigante humanizado, dinossauros, pterossauros e demais criaturas gigantes interagindo com atores humanos em planos abertos e longas sequências sem dúvida deve ter sido bem disruptivo para a época.
Porém, por trás de toda essa inovação, há um (ou mais de um) discurso preconceituoso, que vale a pena ser ressaltado. Mesmo correndo o risco de fazermos uma análise anacrônica.
Os problemas do filme
O filme todo é cheio de problemas. Veja: ele já abre com Carl Denham (Robert Armstrong) declarando que para seu próximo filme ele vai inserir uma atriz jovem, apenas porque o público quer mais romance em seus filmes. O que é isso, companheiro?
Não há desenvolvimento de personagem, não há intenção no roteiro, nem nada. Ele só quer um rostinho bonito pra preencher a tela.
Depois de não conseguir com seu agente, ele mesmo decide ir atrás de uma garota bonita por conta própria, no meio da noite. E o pior, ele encontra uma desesperada que aceita a proposta com cinco minutinhos de conversa. Mesmo o cara dizendo que vai levá-la em uma viagem de cruzeiro, mas não pode revelar o destino. Meu deus, minha filha, isso é a receita do tráfico humano! Você não assistiu Salve Jorge?
Depois disso, a personagem de Fay Wray (Ann Darrow) só serve para ser objetificada, diminuída pelo imediato do navio, John Driscoll (Bruce Cabot), que lhe diz que lugar de mulher não é ali e que mulher só atrapalha. Meu Deus, amigo!
Tudo isso para depois ser sequestrada pelo gorila gigante, que, por mais bizarro que pareça, se apaixona pela “mulher de ouro” (alusão aos cabelos loiros da personagem e da atriz), e em seguida resgatada pelo próprio Driscoll. Que subitamente se apaixona pela mocinha.
E essa zorra toda enquanto a atriz faz caras e bocas e grita. Só isso mesmo! Tanto que a atriz ganhou o título de primeira “Rainha do Grito de Hollywood”.
Racismo e xenofobia
Sem falar em toda a representação racista e xenofóbica do povo da Ilha da Caveira, representados por atores negros no papel de selvagens, burros e supersticiosos, com uma caracterização que até pode ser fruto de sua época, mas é sofrível mesmo assim.
A xenofobia não para aí, no entanto. O cozinheiro do navio também é uma representação bem caricata e estereotipada de um homem chinês.
Foi a beleza que o matou?
Para coroar, o final é emblemático. Denham, que começa como cineasta, vê em Kong uma oportunidade ganhar muito dinheiro. Afinal, é assim que a cabeça de um estadunidense médio funciona.
Ele então decide dopar o animal, sequestrá-lo e levá-lo até Nova Iorque, onde será exibido como uma atração para uma plateia, que despende rios de dinheiro para assistir à assim chamada oitava maravilha do mundo.
Por fim, é claro que o gorila se revolta, graças a toda a tensão de estar acorrentado em frente a uma multidão e ser exposto aos flashes das câmeras dos repórteres, e se solta, correndo pelas ruas da cidade, causando o máximo de estrago possível.
Ele então sequestra Ann Darrow e sobe o prédio Empire State Building. Só para ser detido por aviões, que atiram nele, que desaba lá de cima, caindo morto na contramão atrapalhando o tráfego.
Ao avistar a cena Denham declara: “foi a beleza que o matou”.
Não, seu arrombado! Não. Foi você, isso é tudo culpa sua. Você invadiu um espaço selvagem, sequestrou um animal silvestre e o acorrentou para exibi-lo como atração circense e encher os bolsos. Foi você quem colocou uma mulher inocente em perigo. Todo os acontecimentos desastrosos desse filme têm a sua digital.
Mas o que esperar de um capitalista dos anos 30? Eles são assim mesmo, business acima de tudo, lucro acima de todos! E quando as coisas inevitavelmente dão errado, culpam-se todos, menos a eles mesmos.
Considerações finais
Gostaria de dizer, todavia, que não odeio esse filme. Acho as cenas de ação, em especial as que envolvem o Kong, muito boas. E considero as saídas técnicas bem boladas. E, sim, devemos ler essa obra como fruto do seu tempo. Mas, em 2026, não podemos deixar de destacar seus defeitos. Ainda mais os graves como os aqui expostos. Sob o risco de sermos enganados por uma técnica, que esconde discursos políticos desprezíveis, em qualquer período histórico.
Ainda mais se levarmos em conta a representação de negros e mulheres em outros lugares do mundo na mesma época, especialmente lugares não capitalistas, como a União Soviética, por exemplo.
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