“K”, vivido por Ryan Gosling, no filme Blade Runner 2049 seria o exemplo paradigmático de novo modelo de homem no cinema hollywoodiano?
Já reparou que vive-se uma onda nostálgica de produções que resgatam filmes ou franquias do passado? São reboots, remakes, continuações, live-actions de animações (nem tão) antigas. Ok, que isso não é novidade, mas parece que recentemente essa tendência vem se acentuando.
E sim, você pode estar se perguntando, e daí? É só mais uma tendência que revela ainda mais a decadência hollywoodiana, que há décadas vem sofrendo com a falta de criatividade. Contudo, esse não é um detalhe menor na indústria cinematográfica estadunidense.
Afinal, o cinema, especialmente o hollywoodiano, não é isento de política. Existe por trás dessa indústria vital, uma intrincada rede de interesses políticos e econômicos. Além do óbvio interesse financeiro, essas produções movimentam uma série afetos e visões de futuro em disputa. Ou, como diria a filósofa Sheila Jasanoff, contêm “imaginários sociotécnicos” de futuros “desejáveis ou indesejáveis“.
Nesse sentido, o cinema hollywoodiano se insere no contexto das instituições capazes de elevar certos imaginários, ou visões de mundo, em detrimento de outros, “de acordo com a posição política dominante por propósitos políticos” (Jasanoff, 2015).
Portanto, esse resgaste de produções antigas não é meramente uma tendência mercadológica, ou puramente a falta de criatividade dos realizadores. É possível argumentar que esse movimento é a produção artificial de um futuro que nada mais é que um retorno ao passado institucionalmente estabilizado. Isto é, o desejo de restaurar uma ordem social específica na qual o homem branco/cis/hétero é o mestre soberano da técnica, e onde pode se ver a salvo de um mundo em constante transformação que desafia as próprias noções do que é ser “homem”, “branco”, “cis” e “hétero”.
Um exemplo disso pode ser encontrado na franquia Blade Runner. Logo no primeiro filme, Blade Runner — O Caçador de Androides, do diretor Ridley Scott, o protagonista Rick Deckard (Harrison Ford), é o exemplo paradigmático do herói masculino branco heterossexual. Mesmo diante das mudanças tecnológicas e das
transformações sociais que elas implicam, o herói segue seu código de conduta rígido, sendo o herói que sempre esteve destinado a ser e sobrevivendo a tudo o que os novos tempos lançam em sua direção. Em alguns casos metaforicamente, quando é confrontado pelo Capitão Bryant (M. Emmet Walsh) a voltar a sua vida de caçador de andróides; em alguns casos literalmente, como na sequência no fim do filme onde luta contra o replicante Roy Batty (Rutger Hauer) e acaba com diversos ferimentos, mas mesmo assim sobrevive.
E se podemos dizer que o futuro, a partir dos anos 1970 — com o advento de Star Wars, de George
Lucas, e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg — se torna um “pastiche do passado“, como defende a teórica e crítica cultural Vivian Sobchack, essa nova onda nostálgica torna esse pastiche ainda mais “pastichizante”.
A continuação do filme de Ridley Scott, Blade Runner 2049, da Alcon Entertainment, em parceria com a Sony Pictures e a Warner Bros. Pictures, do diretor Denis Villeneuve, é mais do que uma mera sequência que se passa 30 anos após o primeiro longa. A produção resgata esse “futuro passado” construído na obra original, mas que pode ser considerado como o zeitgeist da ficção-científica dos anos 80. Colocando de novo o herói branco heterossexual no centro da trama.
Citando o teórico estadunidense Douglas Kellner, o filme opera a remasculinização e o restabelecimento do poder branco masculino. No caso de Kellner analisa o personagem título da franquia Rambo, entretanto, o conceito pode ser aplicado para o personagem K, do filme de 2017 que analiso nesse artigo.
Afinal, ao colocar o protagonista K, vivido por Ryan Gosling, como um androide antropomorfo na figura de um homem branco, a produção oferece ao espectador desejoso de encontrar aí os sinais a possibilidade de interpretar esse marcador identitário como aquele ao qual recaem os preconceitos. Isto é, como K é fenotipicamente um homem branco e esse personagem sofre preconceito como uma criatura inferior, um outro não humano, a ideologia masculinista encontra terreno fértil para aventar que a branquitude masculina cis-hétero é perseguida pelos novos tempos, representada não apenas pelas novas tecnologias, mas pelas novas relações sociais que essas tecnologias ensejam. Pois, nesses novos tempos apresentados na obra, o principal posto de liderança militar é ocupado por uma mulher, por exemplo.
Claro que um outro olhar mais atento mostra que tudo isso é muito irônico, visto que quem realiza o preconceito com K são justamente os policiais humanos, que, também ironicamente, morrem facilmente nas mãos de uma replicante “mulher”.
Porém, K não se revolta inicialmente, mesmo sofrendo as mazelas da estrutura de poder patriarcal. Muito pelo contrário, ele até trabalha ativamente para manter essa estrutura de poder. Seja se subordinando a ela, ao “aposentar” outros androides, seja se tentando construir um relacionamento heteronormativo típico. Claro que isso também se da de maneira atípica, uma vez que para realizar tal feito ele se relaciona com o programa holográfico chamado Joy (Ana de Armas). Personagem que ainda reforça os papéis de gênero ao interpretar a esposa bela, recatada e do lar, disposta a tudo para satisfazer seu homem, como na cena em que ela prepara um jantar holográfico. Mas essa é uma outra discussão.
Para retomar e concordar com o pensamento de Kellner, Blade Runner 2049 pode ser lido na mesma chave interpretativa que Rambo e outros filmes com protagonistas “duros”, como os faroestes protagonizados por Clint Eastwood, por exemplo. Isto é, essas obras podem ser compreendidas como “expressões da paranoia branca masculina, em que os homens são vítimas de inimigos externos, de outras raças, do governo e da sociedade em geral” (Kellner, 2001, p. 88).
Em suma, Blade Runner 2049 oferece o que eu chamo de uma ilha de segurança para que essa masculinidade branca cis-hétero neurotípica anacrônica se refugie da agitação do mar dos novos tempos. Afinal, em tempos onde a representatividade de grupos politicamente minorizados vem ganhando mais espaço nas representações culturais, produções que resgatam esse herói branco heterossexual arquetípico como o modelo a ser seguido, oferecem um espaço para grupos masculinistas se sentirem representados e seguros.
Entretanto, o longa dirigido por Denis Villeneuve possui um plot-twist que mais que revirar os rumos da trama, mostra que, mesmo agarrando-se a essas ilhas de segurança, tal masculinidade anacrônica não pode
resistir aos novos tempos.
Afinal, boa parte da história gira em torno de K acreditando ser a a criança da profecia, o filho de uma androide com um humano, apenas para no final descobrir que não o era. E mais, que a criança na verdade era a Dra. Ana Stelline (Carla Juri), ou seja, uma mulher. Portanto, ele deixa de ser o protagonista do enredo, sendo apenas um mero facilitador na história de Deckard, que retorna na sequência, e de sua filha, a Dra. Stelline
Ou seja, mesmo que K comece a trama sendo representado como a máquina perfeita por incorporar o ideal (fascistizante) masculinista do herói branco, ele termina quase como uma “máquina quebrada“, conceito proposto pelos autores Luiza Carolina dos Santos e Marcio Telles no artigo “Mulheres-Máquinas (Quebradas): os imaginários sociotécnicos sobre gênero e inteligência artificial em filmes de Ficção Científica“.
Afinal, o androide entendeu a lógica de dominação masculina sobre outros corpos, inclusive tecnológicos, e se revoltou contra ela, isto é, contra sua própria programação, tornando-se, portanto, defeituoso, quebrado. Quando K descobre que não é o “escolhido”, ele subverte sua programação de herói central e escolhe um ato humano de sacrifício, tornando-se “defeituoso” para o sistema que o criou.
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Referências
BLADE Runner. Direção: Ridley Scott. Estados Unidos: Warner Bros., 1982. 1 filme
(117 min)
BLADE Runner 2049. Direção: Denis Villeneuve. Estados Unidos: Alcon
Entertainment / Sony Pictures / Warner Bros. Pictures, 2017. 1 filme (164 min)
JASANOFF, Sheila. Future Imperfect: Science, Technology, and the Imaginations of
Modernity. In: JASANOFF, Sheila; KIM, Sang-Hyun (Orgs.). Dreamscapes of
Modernity: Sociotechnical Imaginaries and the Fabrication of Power. Chicago: The
University of Chicago Press, 2015. p. 1-33
KELLNER, Douglas. A Cultura da Mídia: estudos culturais: identidade e política
entre o moderno e o pós-moderno. Tradução de Ivone Castilho Benedetti. Bauru,
SP: EDUSC, 2001
SANTOS, L. C. ; Telles, M. . Mulheres-Máquinas (Quebradas): os imaginários sociotécnicos sobre gênero e inteligência artificial em filmes de Ficção Científica. In: SANTOS, Luiza; KARHAWI, Issaaf; SOUZA, Ana Luiza; D’ANDREA, Carlos; ARAUJO, Willian. (Org.). Imaginários Sociotécnicos e Plataformas digitais. 1ed.São Paulo: Intercom, 2024, v. 1, p. 138-155.
SOBCHACK, Vivian. Screening Space: The American Science Fiction Film. 2. ed.
New Brunswick, NJ: Rutgers University Press, 1987

