A impossibilidade de uma Iconografia da Ficção Científica

A impossibilidade de uma Iconografia da Ficção Científica

Seguindo os passos da autora Vivian Sobchack, gostaria de propor a impossibilidade de uma iconografia da ficção científica.

O Desafio de Definir um Gênero Cinematográfico

Afinal, o que define um gênero cinematográfico? À primeira vista, esta pode parecer uma pergunta boba, simples e até banal, mas é mais complexa do que parece e, inclusive, divide grandes pensadores do cinema e da comunicação.

Alguns teóricos e cinéfilos defendem que o compartilhamento de símbolos narrativos e/ou visuais com significados comuns constitui os gêneros cinematográficos; as obras carregam esse sentido entre si, mesmo que cada produção o transforme. Criando, assim, um grande coletivo de significados.

A Estabilidade Iconográfica do Faroeste

Tomemos o exemplo dos Faroestes. Dentro dos filmes que moldaram o Faroeste, ou western, enquanto gênero cinematográfico, mesmo o espectador menos atento reconhece instantaneamente alguns elementos. Podemos citar como exemplos os elementos visuais como as grandes pradarias montanhosas do oeste estadunidense; os trens soltando fumaça enquanto avançam implacáveis sobre os trilhos de alguma ferrovia; os cowboys em seus trajes surrados, montando seus cavalos, defendendo com suas pistolas as mocinhas inofensivas de ataques dos fora-da-lei, a saber, bandidos, indígenas e mexicanos.

E tais imagens carregam consigo significados mais ou menos evidentes para o público. Os trens, por exemplo, ao lado do telégrafo, simbolizam o avanço da civilização ocidental e da modernidade sobre terras “selvagens” e “inexploradas“. Tese que alcança sua representação máxima no quadro de 1872 do artista John Gast, “Progresso Americano”. Na obra, o progresso é representado como uma bela mulher branca, com roupas alvas, que estica uma linha de telégrafo, levando as benesses da civilização para o sofrido povo estadunidense, que marcha para Oeste, expulsando os “bárbaros” nativos “selvagens“, que não fazem “bom uso da terra“.

O mesmo é o caso com os demais símbolos presentes nos filmes e séries de Velho Oeste. O cowboy é o símbolo dos “self-made men“, que exploram o desconhecido e constroem o país enquanto constroem a si mesmos. E nesse fazer a si mesmos entram em conflito com os povos nativos, que representam a barbárie, a selvageria que atenta contra os valores da sociedade ocidental; e com o espaço natural, uma barreira para a ação e a conquista do homem branco.

Estabilidade instável?

Esses símbolos sofrem, obviamente, mudanças ao longo do tempo. Muito também graças às pressões sociais externas às próprias produções. Seja para ressignificar os símbolos, como no caso da valorização da figura indígena – movimento muito presente na Nova Hollywood, que por si só foi uma resposta aos movimentos civis, iniciados nos EUA a partir dos anos 60; seja para reforçar os arquétipos e estereótipos de gênero, como no caso das produções de John Ford, protagonizadas por John Wayne, ou, mais recentemente, na filmografia de Clint Eastwood.

Isso tudo citando brevemente apenas alguns elementos, deixando de fora uma miríade de questões inerentes ao gênero, como raça, classe, gênero, meio ambiente, etc. Apenas para demonstrar como alguns gêneros se ligam por símbolos visuais, sonoros, narrativos ou outros. A isso damos o nome de Iconografia. Ou seja, o western enquanto gênero é reconhecível pelo público graças a esse conjunto de elementos que compõem sua iconografia.

A Iconografia da Ficção Científica: Um Gênero sem Ícones Fixos?

Agora, o mesmo vale para outros gêneros cinematográficos? Talvez sim. Mas e quanto à Ficção Científica? Bem, nesse caso, se formos acompanhar a autora estadunidense, Vivian Sobchack, não! Ora, e por que não?

Em seu livro “Screening Space: The American Science Fiction Film”, a autora tenta fazer uma definição da ficção científica enquanto gênero, delimitando suas aproximações e diferenças com outros gêneros, como o terror, por exemplo.

Todo esse preâmbulo que eu dei aqui, a Sobchack esmiúça bem melhor no capítulo 2, “Images of Wonder
The Look of Science Fiction”
, onde ela tece comentários sobre a iconografia de gêneros como o western e os filmes de gangue. Mas isso não vale, postula ela, para a ficção científica, uma vez que esse gênero não possui uma iconografia, pelo menos não uma única.

Ela cita, por exemplo, a definição do autor e ensaísta francês Michel Butor sobre os filmes de ficção científica:

“Sabe, aquelas histórias que estão sempre mencionando foguetes interplanetários.”

Butor, Michel apud Sobchack, Vivian in Screening Space: The American Science Fiction Film, p. 65 (tradução própria)

Mas Sobchack nega isso, dizendo que o próprio Butor reconhece que as espaçonaves, ou os foguetes interplanetários, são elementos que identificam um filme como pertencendo ao grupo das produções de ficção científica, mas não são indispensáveis. Afinal, diversas obras não possuem esse elemento específico em suas tramas e ainda assim são inegavelmente reconhecidos como sci-fi.

Condições Suficientes versus Condições Necessárias

O que não é o caso com os westerns. Pense bem, quantos filmes são faroestes inegáveis e não contam com cowboys, pistolas, cavalos ou se passam no velho oeste estadunidense (mesmo que nem sempre gravados no oeste geográfico dos EUA).

A autora prossegue listando diversos outros elementos que poderiam ser citados: “o Planeta Novo, o Robô, o Laboratório, Isótopos Radioativos, e Dispositivos Atômicos”. Se formos usar os termos da lógica formal, esses itens são condições suficientes, mas não necessárias para um filme ser considerado de ficção científica. Isto é, se algum desses elementos estiver presente, (muito provavelmente) a obra é de ficção científica. Porém o filme pode ter outros elementos e ser sci-fi, ou ter um desses elementos e não ser de ficção científica.

A Plasticidade das Imagens: O Exemplo da Espaçonave

Além disso, ainda no segundo capítulo a autora analisa talvez um dos elementos mais simbólicos da ficção científica, justamente as espaçonaves. Postulando que existem – pelo menos – três maneiras de representar esse elemento nas tramas de ficção científica: a positiva, a negativa, e a neutra. Ou seja, ela faz quase um quadro de alinhamento da espaçonave dentro dos filmes de ficção científica.

Resumidamente, Sobchack analisa alguns filmes e defende que certas produções apresentam uma representação ‘positiva’ da espaçonave; tais obras a mostram como um elemento confiável e inquestionavelmente bom. Sua representação, portanto, é sempre otimista.

Por outro lado, há aquelas produções que lançam dúvida sobre a espaçonave, como se ela fosse uma armadilha, uma prisão, um inferno. Consequentemente, nessas obras, esse elemento é representado de maneira pessimista, ou “negativa”. E existem também produções “neutras”, isto é, nas quais não há juízo de valor sobre esse elementos. Nesse contexto as naves são apenas meios transportes, simples veículos ou ferramentas a ser usados.

Quadro de alinhamento da espaçonave

A seguir uma tabela com exemplos de filmes citados no livro e como cada produção se posiciona nesse alinhamento criado pela autora. Lembrando que a escritora analisa filmes das raízes da ficção científica, até o meados dos anos 80, então não terá nenhuma super produção mais recente.

Espaçonave “positiva”Espaçonave “neutra”Espaçonave “negativa”
A Conquista da Lua (1950)Da Terra à Lua (1950)A 20 Milhões de Milhas da Terra (1957)
O Fim do Mundo (1951)The Angry Red Planet (1959)Mutiny in Outer Space (1964)
Conquista do Espaço (1955)Queen of Blood (1965)2001: Uma Odisseia no Espaço (1968)
Planeta Proibido (1956)Corrida Silenciosa (1972)

Há ainda os filmes que tratam as espaçonaves como “máquina do tempo”, como é o caso de: “A Máquina do Tempo” (1960), “Passagem para o Futuro” (1964); “20 Milhões de Léguas a Marte” (1956); e “Planeta dos Macacos” (1968). Isso sem falar em produções ambíguas, nas quais as naves são ora positiva, ora negativas; ou então as naves humanas são positivas, enquanto as naves alienígenas são negativas.

Podemos aplicar o mesmo ‘quadro de alinhamentos’ a diversos outros elementos, como os robôs ou alienígenas, amplamente reconhecíveis como elementos de ficção científica.

O Elo de União: O “Feeling” Visual e o Estranhamento

Mas então, se não é possível estabelecer uma iconografia da ficção científica, onde está o elo que une tantas produções diferentes em um único gênero coeso? Sobchack vai dizer (e eu concordo) que a ficção científica possui um “visual”, ou um “feeling” específico. E isso se encontra menos no uso repetitivo de imagens específicas, mas sim em tipos de imagens.

O papel desses tipos de imagens é nos remover do mundo conhecido e nos alienar da realidade, por vezes misturando o familiar com o “alien”. E – adendo meu – geralmente o fazem para (nos levar a) questionar o conhecido e o familiar.

No final do capítulo aqui analisado, a autora chega a dissecar essa estrutura para analisar separadamente cada momento: o alien, o familiar e o extrapolativo. Analisando como cada momento a função de cada um dentro da trama.

Porém isso tudo é papo para um outro momento. Acho que por enquanto já está de bom tamanho a tentativa de comprovar a impossibilidade de uma iconografia da ficção científica.

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