Sonhos de Trem é um filme da Netflix que está concorrendo ao Oscar de Melhor Filme. Além de ser um baita filme ele também nos ensina que tudo está conectado.
“Quando Robert Grainer morreu dormindo em algum momento de novembro de 1968, sua vida terminou tão silenciosamente quanto havia começado. Ele nunca comprou uma arma ou falou ao telefone. Ele não tinha ideia de quem seus pais eram, e não deixou herdeiros. Mas naquele dia de primavera, enquanto perdia a noção do que era céu e Terra, ele se sentiu, finalmente, conectado a tudo.”
Quem me acompanha no Instagram sabe: eu maratonei TODOS os indicados ao Oscar desse ano. E recentemente assisti a Sonhos de Trem, do diretor Clint Bentley, e simplesmente não consigo parar de pensar nessa obra. Especialmente nessa frase final, que encerra o filme numa cena belíssima e tocante.
O protagonista, Robert Grainer (vivido por Joel Edgerton – que não chega a ser um dos meus atores favoritos, mas tá MUITO bem aqui), é um homem comum. Simples. Tem um emprego ordinário como lenhador.
Sua vida, contudo, é afetada por eventos que ele não consegue controlar. Uma árvore caindo num colega querido. Um incêndio que destrói sua casa e leva sua mulher e filha. Anos passam. Ele segue vivendo as delícias e agruras da vida simples. Envelhece. Fica sozinho. Novamente.
Mas, como diz o narrador, num belo dia de primavera, durante um passeio na cidade, ele decide algo inesperado: dar um passeio de avião. E ali, durante o voo, ele finalmente se sente conectado a tudo.
Conectado ao quê, exatamente?
Ao céu. À terra. Às árvores que ele derrubou e às que sobreviveram ao seu machado. Às pessoas que cruzaram seu caminho. À mulher e à filha há muito perdidas. Aos pais que nunca conheceu.
E mesmo sendo simples. Comum. Ordinário. Mesmo não conhecendo os próprios pais. Mesmo não deixando descendentes. Ele deixou sua marca no mundo. Singela, talvez. Mas deixou. Impactando e sendo impactado por cada pessoa que cruzou sua vida.
Isso me pegou de um jeito muito forte. Porque, no fundo, não é isso a vida?
A História, com “H” maiúsculo, pode até ser escrita pelos grandes nomes. Generais. Líderes. Cientistas. Exploradores. Coronéis. Mas sem a gente? As pessoas comuns? Nada seria construído. Nenhuma rua pavimentada. Nenhuma padaria aberta. Nenhum pão na mesa de ninguém.
Ou seja, a História pode não lembrar de nós, pessoas simples. Mas sem nós, a História sequer existiria.
Nossa história é feita disso: encontros e desencontros. Memórias simples. Dias monótonos. Conversas sem importância jogadas fora em momentos corriqueiros. Amores correspondidos ou não. Amizades construídas e desfeitas.
Conexões
Além disso, tem mais: a gente vive numa teia de interdependência tão complexa que chega a ser alucinante.
Sem qualquer um desses desconhecidos, a cadeia quebra. Uma pena que a gente não valorize isso como deveria.
Se não fosse o padeiro, não haveria pão. Mas pro padeiro fazer pão, alguém precisou construir a padaria. Pra construir a padaria, alguém precisou transportar o material. Pra transportar o material, alguém precisou pavimentar a rua. E por aí vai.
Conexões cósmicas
Todas essas funções – isto é, o padeiro, o pedreiro, o motorista – proporcionaram o encontro dos nossos pais. Que só existiram porque nossos avós se encontraram. E assim por diante, infinitamente.
Mas a conexão vai além. Muito além.
Só que esses encontros só foram possíveis por causa de todas as decisões geopolíticas da história humana. Que só foram possíveis porque, há milhares de anos, nossos ancestrais evoluíram, descobriram o fogo e inventaram a agricultura.
Tudo isso só foi possível porque, há milhões de anos, um asteroide caiu na Península de Yucatán, no México, e dizimou as maiores criaturas que o mundo já conheceu – os dinossauros – que eram os bichos dominantes até então.
E tudo só aconteceu porque a vida evoluiu aleatoriamente há bilhões de anos no nosso singelo planetinha rochoso, que flutua no espaço.
E aí a gente chega no ponto de partida de tudo: Há quase 14 bilhões de anos, aconteceu algo chamado Big Bang.
O Universo começou a existir. Nuvens de hidrogênio e hélio se formaram, condensando sob o peso da gravidade. Estrelas nasceram. Dentro delas, átomos se fundiram, gerando toda a matéria que forma tudo o que existe. Estrelas. Asteroides. Planetas. Montanhas. Mares. Rios. Lagos. Plantas. Animais. Nós.
Ou, como disse Carl Sagan:
“O nitrogênio em nosso DNA, o cálcio em nossos dentes, o ferro em nosso sangue, o carbono em nossas tortas de maçã – tudo isso foi feito no interior de estrelas em colapso. Nós somos feitos de poeira das estrelas.”

Gratidão
Então, talvez, a mensagem final seja essa: Agradeça pelo milagre da vida.
Porque, sem querer, há 13,8 bilhões de anos, numa cagada cósmica colossal, uma série de eventos começou e culminou no dia de hoje. Em você, aqui, lendo esse texto. Conhecendo pessoas. Experimentando esse mundo incrível.
Aproveite sua vida. Ame. Faça o bem. Ajude a preservar – porque o planeta já viu cenários muito piores e sobreviveu. Mas nós? Será que a gente consegue sobreviver ao que nós mesmos estamos plantando?
Sonhe. Realize seus sonhos de trem. Porque você só tem essa oportunidade.
Obrigado por me deixar compartilhar esses pensamentos com você
Valdirzera é definitivamente um dos autores do InduTalks. Fez filosofia, mas se formou em Publicidade e Propaganda. Adora quadrinhos, livros, série, filmes e todo tipo de nerdice. É apaixonado por produção audiovisual e sonha em um dia dirigir um longa metragem.
